Entrevistas

 Como a fotografia começou a fazer parte da vida de Damário Dacruz

Domingo,17 de Janeiro de 2010 – 09:30h – Cachoeira – Ba

Como iniciou a sua vida como fotógrafo?

Damário Dacruz: Minhas duas primeiras salas de aula de fotografia foram dois cinemas capoeira chamados Cine Jandaia, na Baixa do Sapateiro e Cine Aliança, na Baixa do Sapateiro. É inusitado! Eu comecei a fotografar sem câmera de fotografar. Eu comecei a aprender a fotografar sem câmera de fotografar. Meu pai tinha muitos empregados, um grande armazém, muitos empregados, e esses empregados trabalhavam a semana inteira e trabalhavam até às onze horas, onze e trinta do domingo. Depois disso iam comer uma tremenda feijoada com dobradinha que minha mãe fazia. Os caras caiam matando de pau nessa dobradinha e nessa feijoada, comiam igual…não sei nem que animal especificar.

Todos nós comíamos muito bem a dobradinha de dona Mara e, logo depois meu pai dava dinheiro pra mim, era meu salário durante anos, possivelmente o patrão que mais me explorou na vida. Eu ganhava dois ingressos para o cinema Aliança, cinema cheio de calor. Daí nós íamos eu, Domingos, Benedito, outros empregados. Íamos assistir as sessões, ou do Jandaia, que ainda está vivo o cinema, pode ser fotografado, ta em ruína e o Aliança que se acabou realmente. Nós íamos pro Aliança ou pro Jandaia.

Naquela época como é que eram as sessões. Eram três sessões aos Domingos! Das duas as cinco, das cinco as oito, das oito as onze. As três sessões passavam os mesmos filmes, ok!. Geralmente um de caubói, e um a romano. Então das duas as cinco, dois filmes, das cinco as oito os mesmos dois filmes, das oito as onze, os mesmo dois filmes. Tanto que as pessoas na Bahia demoraram muito para se acostumar a abandonar o cinema quando acabava a sessão. Hoje é que as pessoas estão mais acostumadas com os cinemas mais modernos no shoping. Antigamente as pessoas continuavam no cinema e assistiam mais um pedaço do primeiro filme ou chegavam no meio do primeiro filme.

Aí, eu assistia o filme, os dois filmes, e os caras roncando. Todos eles roncando! Estavam acabados de cansados e depois de comer uma dobradinha, mais cansados ainda. Aí quando dava umas cinco horas que acabavam os dois filmes eu:

– Benedito, Domingos, vambora!

Eles:

– Nãaaaao! Agora quem vai assistir os filmes somos nós!

Então, eu fui obrigado, durante anos da minha vida, a ver o mesmo filme, logo, imediatamente duas vezes. Aconteceu o quê? Quando eu via pela segunda vez o mesmo filme, eu já não via a história do filme. Eu já via posicionamento de câmera, iluminação, abertura de lente, fechamento de lente, o que era close, o que não era close. Pra mim significou, a segunda sessão do cinema Jandaia, as minhas primeiras grandes aulas de fotografia. Assim eu descobrir a fotografia, assim eu me apaixonei pela fotografia, assim eu comecei a fotografar, sem nenhuma câmera na mão.

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